Dia de chuva...
Ele, eu, o "carro véio", uma sinuosa estrada de barro a nossa frente. Seu bonézinho tentava, mas não escondia os olhos rasgados, iguais aos meus, perceptivelmente amedrontados com aquela situação, mãos firmes no volante, ia em sintônia de um lado para outro, ritmados com os peneus deslizando na lama da ladeira, pés descalsos, hora no freio, hora no acelerador, demonstrando toda a inexperiência de um nenino que acabou de tirar a carteira, - o menino era meu avô- de seus sessenta e cinco anos que acabara de aprender a dirigir, mesmo temeroso, contudo com o rosto sereno assoviava sempre a mesma canção que eu nunca sabia qual era, sempre a mesma, desde quando eu era menino. O terço que pendia no retrovisor do carro parecia indicar a presença de Deus colocando-se entre nós dois... Eu, fingia que nada acontecia, o coração saindo pela boca, minhas mãos suavam e meus pés também, mas a confiança em meu avô era maior que qualquer coisa, maior até que meu medo. Uma paisagem linda de precipícios se apresentava meio turva pela janela,um riozinho cortando as pedras lá em baixo e uma casinha a sua margem. -Ufa, a ladeira acabou!- Ele para o carro, tira as mãos do volante, tremulas, querendo disfarçar retira o boné da cabeça com uma mão e com a outra, alisa os cabelos pretos, incrivelmente pretos apesar da idade, recoloca o boné, vira o pescoço em minha direção, com um ar meio tenso, e de repente um confortante sorriso aparece por debaixo daquele "bigodinho de hitler" que nunca saira da face dele, respirou fundo e disse: " o pior é que tem outra pra subir logo ali a frente oh." não fiz cara de surpreso, já havia passado por ali antes... E lavamos nós outra vez, o mesmo ritual, dessa vez para subir aquele morro monstruoso, que vinha vindo.
Ontem ele se foi, o homem que me deixou de presente os tão comentados "olhinhos rasgados" se foi... Levou consigo seu bigodinho e o assivio daquela canção que nunca tive a curiosidade de saber qual era, e que hoje daria o mundo pra que ele estivesse aqui para que eu pudesse perguntá-lo -Vô, que canção é essa?!- o assovio se calou Ainda bem que eu sempre disse a ele o quanto eu o amava.
-Esta é lembrança que quero guardar do senhor Vô, da ultima aventura juntos. Vá com Deus...